Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Nós e a noite - A pé rumo à Serreta

[História de uma caminhada]

2007/09/08

Passámos em frente ao relógio da Sé e os ponteiros estavam unidos nas 0 horas de sábado, 8 de Setembro de 2007, tal como a nossa vontade de chegar pelo nosso pé à Serreta.

O dia maior começava. Éramos nós dois e a noite mais o desejo de "Boa Viagem" que ouvimos da boca sorridente de uma senhora na rua da Sé. Devíamos ter a cara de quem vai rumo à Serreta preparados para o que der e vier (um saco com umas garrafas de água, algo para se houver fome e um guarda-chuva) e ala...

Pelo caminho, eu disse muita vez: "Espera aí!". Mais devagar... E a respiração ouvia-se mais ruidosa. É que as forças eram inferiores às do meu companheiro. Enquanto que ele levaria umas 3 horas e meia a chegar ao Santuário da Mãe Milagrosa, eu fiz com que levasse 5 horas e meia (+ 2 horas). Benditas horas! Cumprimos os nossos objectivos.

Chegámos junto da Senhora dos Milagres e apresentámos, cada um por si, os seus agradecimentos e preces.

Durante a caminhada houve momentos a relembrar. É exemplo, a "Vila Maria", em São Mateus. O mar dava-nos uns murmúrios de calma. A quebrar os silêncios da noite, interrompidos pelos passos de alguns caminhantes que regressavam do Santuário após cumprirem a sua promessa, ou alguns carros, porque ir pelas freguesias é outro movimento, falávamos sobre o que nos distraísse o cansaço e ajudasse a chegar lá sem quase darmos pelos quilómetros (20).

De vez em quando um golo de água e toca a andar. Apareceram almas bondosas que nos deram garrafas de água entre a freguesia das Cinco Ribeiras e Santa Bárbara - funcionários da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia da Serreta.

No Negrito, ainda em São Mateus, os meus pés obrigaram-me a calçar novo par de meias de algodão. Ainda bem que pensei nisso: cuidar de proteger ao máximo os pés.

Houve duas alturas de paragem obrigatória: Cinco Ribeiras e Santa Bárbara. Nesta freguesia tomámos um café e as deliciosas "donetes" e um pouco de prosa com quem nos serviu com alegria no adiantado da hora.

Seguimos... Mas teve de haver nova paragem num café das Doze Ribeiras que estava aberto para prontamente servir quem tivesse necessidade de retemperar forças, tal como nós. É que estas esvoaçavam sobretudo as minhas. Tinha que chegar lá. Deu tempo para olhar a Igreja de São Jorge das Doze Ribeiras, alta e imponente, como que a dar-nos coragem para seguir e lembrar que ali estivera a Senhora dos Milagres que contava connosco agora no seu Santuário.

O meu companheiro deu-me a mão e o guarda-chuva, previdente neste caso, serviu de bengala e ajudou muito no resto do percurso...

A tabuleta «SERRETA» foi como um grito de gosto e "Avé-Maria" o canto de alegria que balbuciei enquanto pausei um pouco o ritmo do andamento: - Estamos quase! Falta pouco agora.

Quando passei na casa dos meus pais, ao cabo de baixo da canada da árvore, a lua brilhava por cima dela como que a dar-nos as boas-vindas. Apenas a lua nos via e mais ninguém do meu sangue.

E eis que subíamos os degraus do Santuário com aquela sensação de felicidade plena estampada no suor do rosto.

Subimos ao altar para ver melhor o rosto puro de Maria que não me viu lágrimas mas sim consolação.

Depois tivemos casa para ficar até à sexta-feira à tarde (quase 8 dias), e oportunidade de ver a festa do princípio ao fim.

________________
Este artigo surgiu como que no rescaldo de uma reportagem da autoria de Helena Fagundes, da revista DI (Diário Insular), do dia 16.09.2007, cuja capa me levou a ligar para o meu acompanhante da peregrinação e pedir-lhe: - Traz a revista de Domingo que fala da Serreta. Ele trouxe.

Li e vi com mais clareza tudo o que se escrevia lá e também as imagens de António Araújo com gente que conheço do jornal e não só. Até vi amigas e colegas. Fiquei a saber que: "Cada elemento do grupo veste uma t-shirt com uma letra ou um número na frente. Todas juntas, lê-se: "Serreta 07"." - in página 7, do DI, Domingo 16. Um grupo deste jornal partiu no sábado de manhã e chegou à Serreta no princípio da tarde, pelo caminho ficaram imagens da vida rural, o movimento dos peregrinos e toda a cor que rodeia uma das mais fortes manifestações culturais terceirenses. DI relatou a experiência, na primeira pessoa.

Mas foi aquele terço branco nas mãos de uma senhora (sem rosto, numa das fotografias) que traduz plenamente todo o espírito da peregrinação à Serreta: Avé-Maria!. Está lá sempre à nossa espera, Maria, e recebemos sempre o seu Sorriso. É o valor das pequenas grandes coisas que são feitas por Amor.

Tenho a certeza que tanto nós dois (e a noite) e este grupo (e o dia), como tantos outros e demais peregrinos, (noite e dia), sentiram o esplendor de Maria - Nossa Senhora dos Milagres a tocar-lhes o coração... Isso sim, vale tudo! E sorrimos...

Foto do Diário Insular - António Araújo
(Imagem na Revista do DI OnLine, de António Araújo)
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publicado por Azoriana às 22:46
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nota de abertura

Neste espaço residem pequenos fragmentos da alma serretense.
Um residente classificou-a como sendo fresca no clima e quente na hospitalidade. É, sem dúvida, uma freguesia fresca, pequena mas com uma grande alma.

É um "Cantinho do Céu", como a autora lhe chamou num dos seus artigos, já publicados no blog original "Azoriana / Açoriana".
Sob o pseudónimo de Cidália Miravento e na capa de "Azoriana", Rosa Silva vai reunindo coisas suas e de outros no intuito de divulgar a freguesia que lhe deu berço - SERRETA.

Bem-vindo à Serreta, a freguesia de Nossa Senhora dos Milagres, do concelho de Angra do Heroísmo, ilha Terceira - Açores.
in DI Domingo. Foto de António Araújo

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